Os Segredos da Mumificação
Nas Raízes da Alquimia
Paulo Urban
Unida às inquietações gregas sobre a essência da vida, a técnica de embalsamamento de corpos desenvolvida pelos egípcios teria dado origem ao nascimento secreto da alquimia, que se desenvolveria, séculos depois, entre os árabes.
" Oh! Tu que irradias solidões noturnas, Deus do Disco Lu- nar, vê! Eu também te
acompanho entre os habitantes do céu que te rodeiam. Eu, morto, Osíris, penetro
à minha vontade ora na região dos mortos, ora na dos vivos sobre a Terra, em
todas as partes às quais meu desejo me conduz!”
Tal é a citação do
segundo capítulo do Livro dos Mortos, cujos papiros eram comumente
colocados junto ao corpo mumificado, sob a cabeça do cadáver, conforme o
costume funerário egípcio. Outras vezes, passagens de seu texto sagrado eram
transcritas nas câmaras mortuárias, principalmente sob a forma de recitações
mágicas a serem proferidas pela alma em seus percalços no além. Até que pudesse
se apresentar ao tribunal de Osíris, onde seria julgada em razão do que fora
sua vida terrena, Bá, a alma (agora separada de Ká, o corpo), teria de sofrer
árdua caminhada, cruzar 21 pilares, desvendar 15 entradas e passar por sete
salas de provações.
O Livro dos Mortos,
como ficou entre nós conhecido o conjunto de textos mortuários, mais de 200
fórmulas mágicas e hinos datados do Império Novo (1550 a.C.) até o período de
dominação greco-romana (332 a.C.–395 d.c), prestava-se de fato como receita a
ser seguida pelas almas que adentravam no desconhecido. Antes, porém,
destinava-se a instruir os “vivos”, que, uma vez iniciados em seus segredos,
poderiam melhor preparar suas almas para o derradeiro julgamento. Por isso, o título
verdadeiro desse livro é outro; uma melhor tradução de seu nome seria “Saída
para a Luz”, isto é, para o dia, para o renascimento.
Segundo o Livro dos Mortos, alcançando êxito
nas ordálias prévias do post-mortem, a alma deparava-se com a implacável
figura de Osíris, com seu filho Anúbis (divindade semi-humana com a cabeça de
chacal) e outros 42 juízes já paramentados para o grande tribunal. Thot, outra
figura estranha, aparentemente humana, mas com cabeça de íbis coberta pelo
crescente lunar a sustentar o disco do Sol, é o escriba da secreta audiência. O
tema central do julgamento era a pesagem do coração, órgão associado à idéia da
alma. A deusa Maat, cujo nome significa “verdade”, era o fiel da balança. Quase
exclusivamente representada por uma pena de avestruz, ela se colocava sobre o
outro prato da balança, a servir de contrapeso ao coração. Se este fosse mais
pesado, a alma era considerada impura, e o cão Anúbis o atirava a uma terrível
divindade híbrida, que o devorava. Caso seu peso fosse tão justo quanto a pena
de Maat, a alma imaculada, triunfante, era então entregue aos cuidados de
Osíris.
A religião egípcia, não diferente das demais
culturas milenares, estava a alicerçar toda a sociedade. Seus sacerdotes compunham uma seleta classe de letrados, encarregados de
manter os templos, fabricar seus utensílios, reproduzir os rituais e cultuar as
divindades. Eram eles, obviamente, quem melhor podiam atestar o grau divino do
faraó. Fazendo isso, detinham um poder extraordinário, pois captavam não só o
apoio deste, como também as incontáveis oferendas depositadas pelo povo.
O Filho do Sol e a Reforma Monoteísta
Exceção foi o faraó Amenófis IV, da 18a
dinastia, que trocou seu nome para Akhenaton, “Filho do Sol”. A religião do
Egito sofreu com ele uma radical reforma monoteísta. Akhenaton deflagrou sua
guerra religiosa investindo contra o célebre Templo de Amon-Rá que se erguia
defronte de seu palácio, em Tebas. Até hoje restos dessa colossal construção
podem ser visitados; pertencem ao complexo das famosas ruínas de Carnac. Para
que Aton ocupasse definitivamente o lugar das outras divindades, era necessário
que a principal imagem do politeísmo fosse derrocada, e os demais templos de
Amon passaram a ser alvo de ataques. Milhares de sacerdotes
foram destituídos de suas funções. Sob as ordens do novo faraó, todos os nomes
dos deuses escritos nos templos eram raspados, e suas estátuas destruídas ou
confiscadas.
Obcecado pela utopia de
seu Estado, idealizado para ser socialmente justo, Akhenaton esperava trocar a
demagogia e os privilégios dos sacerdotes de Amon por uma realidade que unisse
toda a humanidade sob a glória de um deus único, elegendo o Sol como símbolo
dessa sua concepção religiosa universal. Mandou erigir um templo monumental
para seu deus, o Gem-Pa-Aton, e, por volta de 1350, transferiu-se para o
longínquo vale desértico de Tell-el-Amarna, onde dali a quatro anos inauguraria
a nova capital do império, denominada Akhetaton, ou “Cidade do Sol”. Ao lado de seus 50
mil habitantes, o faraó isolou-se da política externa, preferindo ali a vida
contemplativa e esotérica. Duraria 17 anos a sua reforma, que se sustentou
somente durante seu reinado. Acredita-se que o introspectivo faraó, por
contrariar muitos interesses políticos e religiosos, tenha sido envenenado.
Mesmo as radicais
reformas de Akhenaton, entretanto, não ousaram violar os templos de Osíris.
Também foram preservados os altares dedicados a Thot, divindade que ainda
exportaria suas qualidades ao Hermes grego. Por que tal deferência? Qual o motivo do
respeito de Akhenaton por essas divindades?
Para esclarecermos a questão, peçamos
auxílio ao mito de Osíris. Tal divindade, na era pré-dinástica devia estar
associada à agricultura e à colheita, posto que morria periodicamente a cada
outono para ressuscitar na primavera seguinte, com a cheia do Nilo. Referências
ao mito, ainda que inúmeras e esparsas por diferentes papiros, não retratam, em
nenhuma das regiões arqueológicas já pesquisadas, sua história por completo. Há
sempre divergências nos relatos, que, até por isso, enriquecem o mito com
detalhes. Resumidamente, a versão mais aceita nos é narrada pelo grego Plutarco
(séc. 1).
Osíris Encarcerado
Com o mito já avançado, Osíris chegou a ser
governante dos egípcios, sendo querido por seu povo; afinal, libertara-o da
ignorância, havendo ensinado a todos a agricultura. Séti, invejoso do sucesso
do irmão, arquitetou um plano para apoderar-se de seu trono. Promoveu um
banquete e, havendo obtido previamente as medidas precisas do irmão, conclamou
todos a uma diversão: desafiou seus convivas a se deitarem num belo cofre, que
seria ofertado àquele que nele melhor coubesse. Claro, mancomunados, seus
aliados esperavam pela hora em que Osíris o experimentaria.
Dito e feito: tão logo o rei se deitou no
caixão, sua tampa foi colocada sobre ele e suas alças lacradas com chumbo
derretido. Osíris estava finalmente encarcerado! O esquife foi jogado no leito
do Nilo, para que afundasse. Mas o rio o levou ao mar, e daí à costa de Biblos,
hoje o Líbano. O ataúde empacou nos galhos de uma árvore que brotava, e dali a
alguns anos seu enorme tronco o ocultou. Tudo isso é alusão franca à
transmutação; nessas imagens os alquimistas foram buscar suas idéias de
penetrar nas entranhas da terra, transformar o chumbo, e dela sair renascido. A
imersão no mar nada mais é do que a solutio universal, isto é, a dissolução da
matéria previamente necessária à sua restauração.
A essa altura, a deusa Ísis (esposa de
Osíris e também sua irmã) já vinha em seu encalço. Perguntando somente às
crianças, de cujas bocas só sai a verdade, se haviam visto o ataúde do irmão,
chegou a Biblos. No local indicado, encontrou enorme palácio, que fora
construído por um casal de reis que tinha escolhido aquele forte tronco como
coluna central de sua luxuosa morada.
Ísis resolveu
aproximar-se com cautela. Primeiramente fez amizade com as servas da rainha, e
passou a cuidar de seus cabelos; pintava-as, perfumava-as. A rainha logo quis
saber quem as deixava assim tão belas; atraída pela simpatia de Ísis, não
tardou a confiar-lhe seu filho recém-nascido, fazendo dela sua ama-de-leite.
Mas, à noite, Ísis, que se afeiçoara ao bebê, dava-lhe um leite especial que
extraía de seus dedos e colocava o menino no fogo, para aos poucos conferir-lhe
a imortalidade (outra clara alegoria ao processo alquímico de calcinação). Certa feita,
havendo a rainha surpreendido sua ama nessa prática, deu um grito de espanto, e
o encanto se desfez. A deusa então revelou sua identidade. A rainha,
constatando que o pequeno nem se queimara, acreditou nela e, ajoelhando-se,
disse estar às suas ordens. Ísis lhe pediu então de volta seu marido, preso na
coluna do palácio. A rainha ordenou que escavassem o tronco com cuidado, até
que pudessem retirar dali o cofre. Ísis voltou, então, com ele para o Egito.
O Mistério da Morte
Navegando sobre o delta do Nilo, Ísis
removeu a tampa do caixão e chorou sobre o corpo do irmão-marido. Graças às
lágrimas, por alguns instantes Osíris recuperou a vida – tempo suficiente para
que Ísis engravidasse. Quando a barcaça aportou, a deusa preocupou-se em cuidar
de seu prematuro filho Hórus, que nasceu ali nos pântanos. Ao afastar-se do
esquife, Séti novamente se aproveitou e esquartejou o corpo de Osíris em 14
pedaços, espalhando-os pelo delta do Nilo. Ísis, ao dar-se conta do mal feito,
pediu ajuda à sua irmã Néftis, também mulher de Séti, para remontar o corpo. As
duas reencontraram as partes escondidas e Osíris, ora refeito, passou a reinar
no mundo dos mortos. Seu filho, Hórus, logo resgataria no mundo dos vivos a
glória de seu pai, ao derrotar Séti definitivamente, após uma interminável série
de embates.
Curiosamente, descobertas arqueológicas
encontraram em alguns túmulos da 19a dinastia, datados por volta de 1300 a.C.,
a figura de Osíris num caixão sobre o qual crescem ramos de trigo, milho ou
cevada, idéia esta presente na cultura egípcia desde sua antigüidade tardia. No
museu do Cairo, por exemplo, há múmias sobre as quais foram semeados esses
cereais, a compor as chamadas “hortas de Osíris”, outro símbolo, além do
escaravelho, da ressurreição. Aliás, o cadáver sempre foi um grande mistério. Afinal, o que há nos corpos vivos que os distinguem dos que estão mortos? O que de fato
separa Bá e Ká em sua essência?
Essa mesma preocupação expressavam os
filósofos pré-socráticos por volta do século 6 a.C. Em suas inquietações, eles
buscavam pela base última da vida, a essência fundamental que por ela
respondesse. Tales dizia ser a água; Anaximandro, o ilimitado; para Anaxímenes
seria o ar, e Demócrito julgava ser o átomo; Empédocles imaginava fossem os
quatro elementos em conjunto. Algo havia de existir
que explicasse a vida.
Muito antes disso, porém, por volta de 3000
a.C., os egípcios deparavam-se com um fenômeno que, embora estranho, era
espontâneo e comum diante deles: a mumificação. Isso porque na era
pré-dinástica as sepulturas eram muito simples, meros buracos na areia do
deserto onde os corpos eram atirados. Naquela atmosfera árida, a desidratação
ocorria antes mesmo que se adiantasse o processo de apodrecimento desses
corpos; e, por serem as campas pouco profundas, era comum que tempestades de
areia as destampassem, espalhando cadáveres naturalmente mumificados pelo
caminho. Isso teria propagado a crença de que os corpos deviam ser preservados,
já que a natureza lhes revelava esse desejo. Procedimentos técnicos que
mantivessem a textura do corpo pelos séculos afora passaram a ser prestigiados,
ao lado dos métodos de enfaixamento, feitos geralmente com duas faixas que se
intercalavam e se prendiam, a representar as duas irmãs, Ísis e Néftis, a
abraçar Osíris após sua morte.
O Segredo da vida
Junte-se a especulação dos filósofos gregos
à técnica aprimorada de embalsamamento de corpos do Egito e o resultado disso é
o nascimento secreto de toda a alquimia, que séculos mais tarde se
desenvolveria em meio aos árabes, para retornar ampliada à Europa
renascentista.
No Egito, eram os sacerdotes de Anúbis os
mais experientes na arte do embalsamamento. Por volta do ano 1000 a.C. a
prática atingiu seu auge. A mumificação era realizada nas oficinas das
necrópoles, e sacerdotes do mais alto grau detinham seus segredos. A casta
religiosa conhecia ainda a técnica dos artesãos ferreiros, e trabalhar a
riqueza, os metais, era uma de suas obrigações. Fabricavam ligas por métodos
alquímicos assimilados dos sumérios e depois dos babilônios.
Podemos assim notar que gregos e egípcios
deram-se as mãos na busca pelo segredo último da vida, o mesmo capaz de revelar
a senha da imortalidade, já que toda religião egí–pcia nada mais era do que uma
preparação para o ritual da morte. Afinal, desconfiavam que a mesma essência
capaz de manter o corpo vivo pudesse sobreviver à derradeira experiência e
ressuscitar sob algum aspecto. Tais idéias
repercutiram mais fortemente quando da helenização sofrida pelos egípcios a
partir das conquistas de Alexandre. Por essa época, paradoxalmente, diminuíra o
ritmo da prática da mumificação, mas em suas bases já se enraizava o anseio e a
esperança de vencer a morte. Tais sentimentos foram
projetados sobretudo na alquimia, que se fortaleceria pelos séculos seguintes. Por isso dizemos
que a alquimia, em sua práxis, alia a filosofia dos gregos à sagrada técnica de
mumificação dos egípcios.
O método de mumificação demorava
inicialmente 70 dias, na verdade dez períodos de sete, cada um deles dedicado a
seu respectivo planeta. A parte mais importante era a desidratação do corpo.
Para tanto, mergulhavam-no numa solução de natrão. Este era trazido
principalmente do oásis Uadi el-Natrun, situado próximo ao delta, a noroeste do
Cairo. A palavra natrun compõe-se do mesmo radical do termo latino natrium,
ambos a significar o sódio, o sal da Terra, de onde vem a palavra natura,
que quer dizer natureza. Além disso, o hieróglifo com que se escreve “sódio”,
curiosamente, é o mesmo que significa Deus.
A Mumificação
O natrão, na verdade, é uma mistura de sulfato,
cloreto, bicarbonato e carbonato de sódio. Sua ação sobre o cadáver
propositadamente servia para impregnar o corpo e melhor preservá-lo, como
também para torná-lo negro e petrificado. Nesse aspecto, transformar o cadáver
em pedra aludia à própria feitura da pedra filosofal, posto que o que se
pretendia era banhar o cadáver no sal, na prima-mater divina, isto é, na
substância natural divina.
Cumprido o tempo de desidratação, extraía-se
então o cérebro. Em seguida as vísceras, por incisão no flanco esquerdo. Estas
eram tratadas com natrão, e banhava-se as cavidades corporais para
esterilizá-las. O próximo passo era a secagem das vísceras e seu tratamento com
resina derretida. Preenchia-se, então, o corpo com essên-cias odoríficas, e o
cadáver novamente era submerso em natrão por mais 40 dias, período associado
agora às estações. Passado esse tempo, substituía-se o material de enchimento
por outro à base de areia e barro. De novo vinham as resinas perfumadas e era
feita a ablação do corpo com ungüentos. Tratava-se a superfície corporal com
resina e introduzia-se ouro sob as unhas do cadáver. Em seguida vinha o
demorado processo de enfaixamento e inclusão de jóias e amuletos. Por fim, o
sepultamento ritualístico. Como vimos, alquimicamente, as duas faixas a representar
o feminino (as duas deusas) serviam de complemento ao corpo, considerado
masculino, por simbolizar Osíris.
Nesse ritual, nenhum passo era dado sem que
a prática estivesse acompanhada de uma prece. Por exemplo, quando banhavam o
cadáver em natrão, os papiros nos revelam que os sacerdotes chamavam pelo nome
do morto e o juntavam ao nome de Osíris, prometendo-lhe a vida eterna. Da mesma
forma, quando introduziam o ouro sob as unhas do falecido, diziam algo assim:
“Agora o ouro de Hórus o conduzirá à imortalidade.”
Cada cadáver, portanto, feito Osíris,
representava o mesmo princípio cósmico que os gregos identificavam sob vários
outros nomes. Osíris corresponde também ao pneuma, ao nous cósmico que a tudo
preenche, ou à essência divina de cada ser individual. E toda a alquimia
medieval encontra nesse costume egípcio a sua origem. Talvez esteja aí a
explicação para o fato de o faraó Akhenaton, ele próprio um iniciado nos mais
densos mistérios da Fraternidade Branca, ter deixado incólumes os templos de
Hórus e de Osíris, divindades especiais, detentoras dos segredos da alquimia.
Paulo Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta junguiano e
acupunturista. E-mail para contato: paulourban@ig.com.br