LIVRE ARBÍTRIO?
Somos Seres humanos condicionados. De forma geral, todo pensamento é resposta a consulta formulada à nossa base de memória (cérebro), portanto, o pensamento é a resposta do passado. Se não houvesse um passado, não haveria pensamento, haveria um estado de amnésia. O passado é pensamento e, desse modo, enquanto existir o passado como pensamento, esse mesmo passado dividirá a vida no tempo em passado, presente e futuro.
Parte desse condicionamento é muito importante e necessário, pois se não existisse, não poderíamos estar falando uns com os outros, não saberíamos retornar para as nossas casas e não teríamos uma série de conhecimentos que são necessários para o nosso dia-a-dia.
Esse condicionamento é composto pela parte consciente e inconsciente. Existem certos acontecimentos que não tomamos consciência. Permanecem, por assim dizer, abaixo do limiar da consciência. Aconteceram, mas foram absorvidos subliminarmente, sem nosso conhecimento consciente. Só podemos percebê-los em algum momento de intuição ou por algum processo de intensa reflexão que nos leve à subseqüente realização de que devem ter acontecido. E apesar de termos ignorado originalmente a sua importância emocional e vital, mais tarde brotam do inconsciente como uma espécie de segundo pensamento. Se tomarmos uma pessoa que ficou em uma sala durante algum espaço de tempo e pedirmos que nos diga o que vai no seu recinto, ela nos descreverá 15 ou 20 objetos, dependendo de sua acuidade. Mas, se a mesma pessoa for hipnotizada e observar a mesma sala no mesmo espaço de tempo, será capaz de discriminar tudo o que há nela.
Tudo que ouvimos fica gravado. O inconsciente é como um gravador ligado, que guarda na fita não só a voz da pessoa que fala, mas todos os ruídos e vozes que por acaso estiverem em volta. Além disso, o cérebro realiza associações, que são impulsos neurais ligados uns aos outros como numa teia. Esses impulsos foram chamados de neuroassociações e descobriu-se que é devido a elas que o cérebro é capaz de, por exemplo, associar a palavra "papel" com a lembrança da caneta e posteriormente ir da caneta para uma lembrança de nossa infância.
Michael Talbot, em um de seus livros, conta que estava passeando com uma amiga quando uma placa de sinalização na rua chamou a sua atenção. Era simplesmente um sinal de "proibido estacionar" e não parecia diferente de qualquer outro sinal dessa natureza espalhado pelas ruas da cidade. Mas, por alguma razão, ele ficou paralisado. Nem mesmo tinha consciência de estar olhando fixamente para a placa, até que a amiga de Talbot de repente exclamou: "essa placa está pintada errado!" Essas palavras tiraram-lhe do devaneio e, quando ele olhou conscientemente, o "i" na palavra parking (estacionamento) rapidamente se transformou num "e".
O que aconteceu foi que, como ele estava acostumado a ver o sinal escrito corretamente, seu inconsciente alterou o que estava escrito e lhe fez ver o que esperava estar lá. Pela primeira vez Talbot compreendeu que o olho-cérebro não é uma câmara fiel, mas remenda o mundo antes de dá-lo a nós.
Estando condicionado, o cérebro funcionará como se auto-excitasse, cuidando para manter absolutamente fiel à sua programação. Isso ocupa praticamente todas as suas capacidades. O cérebro funciona como se fosse um computador. Esse condicionamento do cérebro é o que constitui o "Ego". Enquanto o cérebro pertence ao corpo físico, portanto, limitado e vivendo no tempo e espaço tri-dimensional, a Consciência, não. A Consciência não pertence ao corpo físico e é ilimitada, não-condicionada e atemporal. Ambos são bastante independentes, mas estão interligadas. O cérebro passa a ser um instrumento da Consciência, quando não é egocêntrico. Em essência o cérebro deveria responder à Consciência se estivesse livre do que é limitado, nesse momento, a sua programação não a dominaria. A inteligência vem da Consciência.
Dessa forma, sempre que nos depararmos com uma escolha, nossa decisão será determinada não por uma livre ação da vontade, mas por um número indeterminado de fatores que compõem o nosso Ser naquele momento - impulsos hereditários, reflexos instintivos, formação moral e milhares de outras tendências que inclinam para uma dada escolha especial, tão inevitavelmente quanto um imã atrai uma agulha para dentro de seu campo magnético. Um ato de escolha não poderia ser livre, a menos que ele prescindisse de motivos, pois nossos motivos resultam de condicionamentos passados.
Nós podemos escolher o que quisermos, mas, em princípio, só escolheremos algo dentre àquelas constantes em nossa memória.
Existe uma historinha que exemplifica bem essa situação:
Um elefante estava passando numa ponte, quando ela ruiu. Olhando aquela destruição toda, uma mosca que estava em cima do elefante disse: "Nossa nós somos poderosos mesmo!" O elefante espantado disse: "Até o momento eu nem sabia que você estava aí em cima...e deu uma gargalhada..." O elefante é nosso condicionamento e a mosca é nosso livre arbítrio.
O nosso cérebro é holográfico e se comporta como uma lente que transforma o mundo real, o transcendente, o ilimitado no mundo das aparências (maya). Na física quântica essa transformação foi chamada pelos físicos de "colapso da onda". Segundo, Amit Goswami um dos mais importantes físicos da atualidade e que penetrou fundo na espiritualidade humana, esse colapso é provocado pelo Observador, Consciência. Por outro lado, se postularmos que a Consciência, o observador, causa o colapso da onda de possibilidades, escolhendo a realidade que está ocorrendo, podemos fazer a pergunta: qual é a natureza da Consciência? E encontraremos uma resposta surpreendente. Essa Consciência que escolhe e causa o colapso da onda de possibilidades não é a consciência individual do observador (Ego). Em vez disso, é uma Consciência Cósmica (Eu) ou como os físicos estão preferindo chamar "Eu Quântico".
Quando um estímulo é encontrado pela primeira vez, não há memória prévia dele; a Consciência seleciona livremente entre as possibilidades quânticas disponíveis. Amit Goswami deu a esse evento o nome de percepção primária. Os atos subseqüentes de observação quântica de estímulos semelhantes serão refletidos no espelho da memória anterior, da escolha anterior. Retomar uma lembrança a reforça, e o resultado do reforço repetido é o condicionamento. Nesse caso, a memória produz um estímulo interno, o cérebro responde com uma superposição quântica de possibilidades e a Consciência transforma uma das possibilidades em ato, proporcionando-nos uma experiência de percepção secundária. A Consciência, ao sucumbir num resultado condicionado, se identifica com os hábitos e a história condicionados, produzindo a falsa impressão da individualidade.
Habituados ao condicionamento, dependemos mais dos estímulos exteriores para obter a felicidade, parecemos ter perdido a chave da felicidade dentro de nós mesmos.
Mula Nasrudin estava sob a luz da rua, procurando freneticamente alguma coisa. Um transeunte lhe perguntou: "O que está procurando, Mula?"
"Perdi minha chave; estou procurando a minha chave", resmungou Mula.
O transeunte começou a procurar a chave também. O tempo foi passando.
"Onde perdeu sua chave, Mula?", perguntou ele.
"Na minha casa", disse Mula
"Então por que está procurando aqui, seu tolo?!", gritou o homem, exasperado.
"Há mais luz aqui", apontou calmamente Mula.
Há mais "luz" no mundo exterior dos estímulos sensoriais, e por isso nós procuramos a felicidade ali. Mas a verdadeira fonte de toda a felicidade encontra-se dentro, com o Eu Quântico.
Bibliografia:
O Universo Autoconsciente - Amit Goswami
A janela Visionária - Amit Goswami
O Significado da Felicidade - Alan W. Watts
O Universo Holográfico - Michael Talbot
O Homem Total e a Parapsicologia - Albino Aresi
O Homem e Seus Símbolos - Carl Jung
A Eliminação do Tempo Psicológico - Krishamurti e Bohm
@
NOSSO CONDICIONAMENTO
Nosso condicionamento, consciente e inconsciente, é muito profundo e poderoso, não é verdade? Somos cristãos, hinduístas, ingleses, franceses, alemães, indianos, russos; pertencemos a esta ou aquila igreja, com todos os seus dogmas, a esta ou aquela raça, com toda a sua carga histórica. Superficialmente a nossa mente é educada. A mente consciente é educada de acordo com a cultura em que vivemos, e desta talvez seja possível nos desembaraçarmos com relativa facilidade. Não é muito difícil deixarmos de ser inglês, indiano, russo ou o que por acaso sejamos, ou abandonar determinada igreja ou religião. Mas bem mais difícil é "descondicionar" o inconsciente, que desempenha um papel muito importante em nossa vida do que a mente consciente. A educação da mente consciente é útil e necessária para termos um meio de ganhar o sustento ou desempenharmos uma determinada função.
Porém, interiormente, inconscientemente, profundamente, somos o resultado de milhares de anos de esforço humano; a soma total das lutas, esperanças e desesperos do homem, de sua eterna busca de algo transcendente, e esse acumular de experiência prossegue ainda dentro de nós mesmos. Estar cônscio desse condicionamento, e dele libertar-se exige grande dose de atenção.
Isso não é questão de análise, porquanto não se pode analisar o inconsciente. Há especialistas, bem sei, que tentam fazê-lo, mas não o creio possível. O inconsciente não pode ser examinado pelo consciente. Já vos digo porquê. Através de sonhos, sugestões, de símbolos, de mensagens diversas, tenta o inconsciente comunicar-se com a mente consciente. Essas sugestões e mensagens requerem interpretação, e a mente consciente as interpreta de acordo com seu próprio condicionamento, suas idiossincrasias. Nessas condições, não há completo contato entre as duas, nem perfeita compreensão do inconsciente. Ele é algo que em sua inteireza não conhecemos bem. Entretanto, se não compreendemos e nos libertamos do inconsciente, com sua carga "histórica" - a longa história do passado - haverá sempre contradição, conflito, uma furiosa batalha interior.
Assim, como disse, a análise não é o meio de compreender o inconsciente. A análise implica um observador, um analista separado da coisa analisada. Há uma divisão; e onde há divisão, ai não existe compreensão.
Ora, essa é uma de nossas dificuldades, talvez a principal dificuldade: o ficar livre de todo o conteúdo do inconsciente. É possível tal coisa?
O que acontece quando vemos a nós mesmos exatamente como somos? Se percebo que sou brutal, rancoroso, mesquinho, cheio de vaidade, sinto-me deprimido. Digo " que coisa horrível" - e ponho-me em agitação, tentando modificá-la. Ora, essa tentativa de modificar a coisa, essa tentativa de fazer algo em relação a ela, está ainda no terreno da análise. Mas se, ao contrário, limito-me a observar, sem escolha - e isso significa estar observando negativamente - já não há, então nenhuma série de análises do inconsciente; estou completamente fora do terreno da análise, porque quebrei o padrão.
O importante é romper essa muralha de condicionamento, de hábito. A muralha do hábito só pode ser rompida quando a pessoa está completamente cônscia, sem escolha, negativamente vigilante.
Senhor, quando subitamente, vedes uma montanha em toda a sua imensidade e beleza, suas imponentes alturas e seus abismos, que podeis fazer em relação a esse espetáculo? Nada, absolutamente. Vós apenas contemplai, não é assim? Mas, que é que geralmente acontece? Olhais para a montanha em um rápido segundo, e dizeis, em seguida, quanto é bela; e, com essa própria verbalização, já não a olhais, já lhe voltastes as costas. Se olhais realmente para uma certa coisa, vossa mente se torna muito quieta, porque então já não estais julgando, já não estais traduzindo o que vêdes em termos de comparação. Apenas olhais - e é isso o que eu entendo por observar negativamente. E se puderdes olhar-vos dessa maneira, todos os hábitos e condicionamentos inconscientes se reduzirão a uma só coisa, que, pela compreensão direta, eliminareis completamente. Isso não são meras palavras. Experimentai-o, e vós mesmo o comprovareis.
Livro "O Homem e Seus Desejos em Conflito" - Krishnamurti